domingo, 24 de agosto de 2008

O rei do seu próprio reino

Todas as semanas ele juntava um amontoado de pessoas em seu apartamento. As “festas” eram apenas uma desculpa para poder fazer aquilo de que mais gostava: falar. Nos andares de baixo ecoava apenas uma voz: a dele.
De vez em quando, escutava-se um par de saltos caminhando nervosos. Silêncios breves eram interrompidos por uníssonas gargalhadas femininas. Certamente ele havia contado uma piada.
Estava, ali, a família reunida. Num lindo domingo de sol. Crianças correndo, brincando, gritando. Chorando e rindo ao mesmo tempo. Crianças. Gargalhadas ao fundo. Exalava do corredor um cheiro de comida meio frita, meio assada: jamais saberemos. Tudo isso vinha lá de cima. Num lindo domingo de sol, dia em que ele foi coroado o rei da oratória.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Entre ruas paulistanas: não esqueça: "Vá andando, o caminho é tão agradável!"

Nunca pergunte a um paulistano se um lugar é perto. Ele inevitavelmente responderá que sim: “É logo ali, apenas umas cinco quadras”, esquecendo o pequeno detalhe de avisar a você sobre o imenso tamanho das quadras. Justamente a esta pessoa recém chegada do interior, vinda de uma cidade onde o tamanho da quadra equivale a dar uma volta em si mesma. Ingenuamente você segue o seu destino. Num sol de rachar. “Por favor, a Rua B. é nessa direção?” “Ihhh! É minha filha, mas tá longe! Vai passar, ainda, a Rua V., a C., a Y., a W., e, só depois, chegar lá”. “Moça! Mas a minha amiga falou que era perto!”. Com os olhos insuficientes, faz força para decifrar as placas ao longe, pensando: “Só pode ser a próxima rua”. E, quando chega lá, não é. “Oi. Por favor, a Rua B. está muito longe?” Não! Uns cinco minutinhos caminhando”. Eu estava a pé, não tinha outro jeito. É mais uma! São mais várias umas... E caminha, caminha. Anda até chegar à avenida mais movimentada: “Só pode ser esta”. E é. Finalmente. Respiramos fundo o ar poluído. Eu e todas as vinte e oito pessoas para quem eu perguntei se ainda estava longe. Nesta desmedida cidade, a cada dia descubro que, por maior que ela seja, o gigante se apequena; de fora para dentro, de dentro para fora.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A cegueira e uma tentativa de ensaio

Sorte de hoje: Pare de procurar eternamente; a felicidade está bem ao seu lado.

Se alguém tão sábio me avisou... Melhor acreditar.

Quantos mais não receberam a mesma mensagem? E quantos tolos não a continuarão procurando?

De que adianta ter alguma coisa em nossa frente enquanto estamos cegos? Não são avisos que nos farão ver. Existem por aí pilhas deles. Cego de mim, não enxergo patavinas.

Continuo achando que quem procura não acha nada, pois quem sabe faz a hora não espera acontecer. Sei que a frase não é minha, mas não pude evitar. E ainda roubando idéias, sigo os conselhos do Woody Allen: se for para plagiar, que seja dos melhores.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Sofia segue sem sentido, sentindo

Levantou-se sentindo-se suja. Dez banhos não seriam suficientes para tirar os resquícios. A cara inchada trazia-lhe os indícios de ontem. Haviam-na violentado; ainda buscava o motivo. Porque em vida tão calma habitava tão grande desassossego? De onde vinha o turbilhão de coisas que ela própria não sabia explicar? Já não podia mais falar. Já não cabia mais em palavras, já não fazia mais sentido.
Sentia raiva. Tanto rancor paralisava-lhe o cérebro. Ódio daqueles que, diferentemente dela, chegaram na frente. Dos que não tiveram medo. Dos que se exibiram, mostrando a cara, aceitando serem julgados. Ela, de tão subexposta, estava quase virando um espectro.

Enquanto pensa, os outros fazem. Pensa e sofre. Sofre e trava. O dia vai, enquanto entope-se de litros de chá de camomila. Quem sabe, assim, os nervos agüentam o tranco.

Posso morar dentro de mim? Parar de falar tudo aquilo que parece lógico e viver fechada? Já não somos todos uma fachada? Já que nada faz sentido? E sentimos em demasia? Ouvi alguém me dizer: “Preciso acreditar que vamos fazer isso dar certo”. Estamos o tempo todo querendo fazer algo dar certo, sem motivo algum. Como na foto de ontem em que aparecia quase transparente. Já sou quase um fantasma. Apenas existo por aquilo que produzo, sem isso não sou nada. E para que servem os textos de uma autora fracassada? Viver no limbo de nunca ter alcançado coisa alguma. Na angústia de sempre estar chegando. Sempre em segundo lugar. O primeiro já está tomado por alguém que não é tão boa como você. E a única coisa que resta fazer é injuriar. Para chegar em algum lugar demora um tempo. Eu só quero saber onde está esse lugar. E quanto tempo ainda falta. Alguém sabe me dizer?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Tic Tac II

Hoje quero acreditar no Renato Russo: não foi tempo perdido, somos tão jovens.
Estou velha, no limite da decrepitude.
O tempo se vai esvaindo, já não há tempo para nada.
Ele passa, causando as horas, os dias.
Não há concentração para o que preciso: sobra para o que não se precisa e não é preciso.
Ele me corta ao meio, me deixa exposta, como uma fruta virada do avesso.
Fico ali, escancarada.
Mas você ainda está verde, é isso?
Não, madura demais, quase podre.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Seguindo seco

Viva de lendas, das suas, dos outros.
Sugue tudo o que for possível: assim não se sentirá cansado.
Esqueça as gentilezas, elas jamais foram passe para lugar algum.
Lugar algum tampouco existe.
Troque as fantasias por máscaras permanentes.
Esconda os dentes e mostre uma carranca.
Estanque tudo de fluido.
Não dê ouvidos: dê as costas.
Viva do passado.
Ande com seus pés virados para trás.
Aponte seus dedos na cara de quem não merece.
Ninguém faz por merecer.
Merecimento é o mérito dos tolos.
Busque a aprovação alheia.
Provando sua sanidade.
Veja se agüenta.
Doe seu tempo a causas inúteis.
Viva encaixando-se na dança.
Não saia dos conformes.
O perigo é de morte.
Ignore as regras
Jogue-se de cabeça.
Não esqueça que vai doer.
Segure o pranto e não deixe ninguém ver.
Olhe sempre por cima da cabeça alheia.
Veja longe, perto é verde demais.
No horizonte está o cinza.
Seguindo reto, sacando seco.
Enchendo o saco.
Entregue-se à monotonia borbulhante.
Trazida pelas ruas, pelas buzinas, pelos falantes.
Falam demais, qualquer coisa, o tempo todo.
Não calam a boca.
O silêncio é estridente.
Berra-se mais por não se saber ficar em silêncio do que por se querer falar.
Então fala-se qualquer coisa.
E qualquer coisa é falada.
O tempo todo.
Os ouvidos vão sendo entupidos.
Entulhados.
Transbordam lixo.
Ficam surdos.
Ficamos surdos.
De nós. Dos outros. Do mundo.

Agumas perguntas encontram certas respostas - O Espelho, Parte II

Ao que o espelho responde-lhe:
"Alguém que acha que já tem tudo na vida só pode ser um estúpido!".

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Lendo além - O Espelho, Parte I

Cansada de viver por olhos alheios, em seu reflexo no espelho, Sofia lia:
"Tenho tudo na minha vida, só me falta vivê-la".

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Dormindo acordada

Dormiu plena. Acordou vazia. Buscou a cama estranha; procurava a sensação de acordar sem saber onde estava. São aqueles segundos mágicos: você desperta sem noção de onde esteja, e todos os lugares, desde os mais improváveis, passam pela sua cabeça. Acontece quando você está viajando, muito distante, e acorda achando que está em casa, na casa dos seus pais, de algum amigo, em algum lugar perdido da infância. Ela não sabia onde estava, por isso não se importava de acordar em qualquer lugar.

- Eu preciso sair!
- Mas nós estamos na rua!
- Estou falando de me divertir!
- Não estamos nos divertindo?

Como as bonequinhas que ficam estáticas dentro do vidro redondo, era assim que a tratavam. “As pessoas só compram aquilo para girar a boneca de cabeça para baixo e para cima, e ver a neve cair, num movimento monótono, repetido.” Gostavam de observá-la, cada pequeno gesto, cada ínfimo deslize. Ele a via em sua redoma, com seus limites; se passasse do ponto, estouraria. Ela era além dos limites. Jamais os havia buscado, não tinha interesse em saber aonde se encontravam.

- Eu sinto que vivo a dar voltas em você! Nunca chegamos a lugar nenhum!
- Você não sabe o que quer. Quem não sabe o que quer não pode querer chegar a lugar nenhum.
- É você que não entende o que eu quero.
- Você realmente não sabe o que quer. Ou, se sabe, finge que quer outra coisa.

Ela estava apaixonada. Sabia que ele não se sentia da mesma forma. Preferia esperar que alguma coisa fosse acontecer, era melhor assim. Antes isso do que aceitar que talvez ele estivesse dando para ela o máximo. Esperava: ele acabaria percebendo o quanto a amava e que, no fundo, estava apenas inseguro.
Se a vida nos dá pistas enquanto seguimos, e andando construímos nosso caminho, a estrada de Sofia desembocava em um beco sem saída, percorrido por ela num incessante movimento de vai-e-vem. O único percurso completo era ele.

sábado, 2 de agosto de 2008

Eu me vejo por seus jovens olhos - A Carta, Parte II

Ela fez o máximo, que pôde. Ele aproximou-se, deu-lhe um abraço apertado e sussurou em seu ouvido: "Não deixe as lembranças estragarem os momentos reais da sua vida. Eles também passam. E assim como nós dois, não voltam mais."
Ela lembrou-se de Beckett: "Você está na Terra; não há cura para isso", buscando qualquer coisa que apaziguasse o tormento que a revolvia por dentro. Queria uma cura instantânea para o seu mal-estar. Não havia. Sabia o que ele estava pensando. Sabia o que a namoradinha nova dele estava pensando. Ela não era a tal palhaça a quem se referiam, mas deixava que pensassem assim. No fundo, era melhor que tivessem essa impressão.
"Foi quando você terminou comigo e eu o vi com ela que percebi: ela era tudo o que eu jamais poderia voltar a ser. Vocês eram tudo o que eu jamais poderia voltar a ser. Vocês dois faziam sentido. Nós, nunca fizemos. Não, eu não gosto de você. Estou terrivelmente assustada com a realidade de estar envelhecendo. Viver com você me traz a sensação de ter dezoito para sempre, me livra da angústia de virar alguém que não conheço. Ninguém volta a ter dezoito anos e você escolheu um jeito definitivo de me mostrar isso."

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Do dia em que Sofia sofreu... e lhe fez uma canção. Parte I

Não levantava da cama sem antes passar dez minutos agarrada ao cobertor, sentindo pena de si mesma. Vivia a juntar cacos ao redor. Quando percebia, eram ela. “Que sonho? Que sonho? Que sonho estou buscando? Tive que largar tudo, para entender que estava tudo bem. Que diabos estou fazendo aqui? E eu que achei que sabia.... Só quero me sentir em paz... Está tudo fora de todos os compartimentos... TUDO! TUDO! As PESSOAS depois de um tempo viram pessoas. Difícil de engolir, impossível de enxergar. Não sei o que o amor faz com a gente.

Sozinha no apartamento, ela esperou dias. Torturando-se com o cheiro, ainda, deles. Não adiantava lavar, estava impregnado nela. Aguardava pelo cara que nunca chegaria. Tinha para ele todas as desculpas, apesar de ele nunca haver se importado em dar nenhuma.

“Um dia decidi escrever uma canção sobre rodinhos de pia porque achei que ninguém mais entenderia. São aquelas coisas... dos casais. Aquelas bobas, mas que você, ao olhar para o rodinho, entenderia. Eu, admirando o estúpido rodinho, entendo. Apenas nós dois entendemos. Para o resto do mundo, um rodinho, é apenas um rodinho. Ele tira a água da pia e nada mais. Não que isso importe, não mais. No futuro, o que foi tão estimado, não terá mais estima nenhuma, ao contrário do que você pensa.
E por falar em portas... Ontem percebi que você é um colecionador de portas e foi por isso que resolvi falar na linguagem de rodinho de pia: talvez você entenda aquilo que nunca entendeu e eu jamais lhe explicarei, porque não lhe devo e porque não faz mais sentido. Você é um colecionador de portas e quando teve a oportunidade de agir diferente fugiu, correu. Você nunca foi aquele que conheci na Casa da Surrealidade, nunca... Aquele fui eu quem inventou. Era o meu par, não era você, nunca foi você..."