quarta-feira, 30 de julho de 2008

Sofia conhece Sr. A.

Apressada. Corria contra o tempo. A Alice nunca foi, mas o Sr. Coelho, este sim. Atrasada, sempre, mesmo sem saber o porquê. Corria contra o tempo desde que inventou um tempo próprio.
Foi quando conheceu o Sr. A, fulano este que não via nada, nem ninguém. Do jeito que passava feito uma flecha, só podia ser assim. Alguém tinha mais pressa do que ela. Sr. A. entrava na padaria, silente. O moço detrás do balcão trazia café. Devia estar frio, só pode, porque o homem tomava tudo num gole só e saía. Não pagava, não falava. Sofia perguntou ao garçom:

- Ele não senta?
- Não, acho que vive em pé.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Dos diálogos do menino e sua avó

Caminhando por ali, quase que por acaso, Sofia adentrou em uma exposição de fotos.
Observava, uma a uma, as imagens bem dispostas na parede. Tentava decifrar aquilo que o silêncio lhe dizia. Tantas vezes achara que ninguém a entendia, que não lhe tinham nada a dizer. Era ela que não estava disposta a escutar. Perdia-se por entre as imagens, quando percebeu que um menino perguntava a sua avó:

- Porque o moço está na frente do tanque?

- Ele está querendo mostrar que algumas coisas não estão certas.

- E é certo ele ficar na frente do tanque?

- Às vezes, temos que usar formas incomuns para mostrar o que é certo e o que é errado. Foram as pessoas que inventaram o certo e o errado.

- Vó! Então as pessoas podem inventar o seu certo?

- Depende da situação. Não devemos inventar coisas que atrapalhem as outras pessoas.

- Mas vó... O moço está atrapalhando o tanque! Ele não está com medo de ser atropelado, vó?

- Deve estar, com muito medo.

- E porque ele não vai embora?

- Quando temos muito medo, olhamos para ele e tentamos descobrir o que é. Então, quando descobrimos, ele fica bem pequenininho.

- Ah! Entendi! Então ele enxerga o tanque bem pequenininho!

Sofia pendura suas lembranças

Parei estática, apreciando em moldura viva o presente do passado que não volta mais.
Percorreu o corpo toda a tristeza de me ver contente por esta que sou.
Foi a imagem na moldura viva que me congelou.
Enquanto admirava momentos históricos capturados por outros, fui tragada por uma imagem viva que se transformou em foto para mim.
Triste pelo rompimento que a morte traz, vivo a lembrança viva por símbolos emprestados. Emoldurei minha lembrança.
É assim que ela volta para mim, transfigurada em outros.

domingo, 27 de julho de 2008

Tic Tac

13:59
- Bob.
- O Marley?
- Não, o Dylan.
- Você queria ser o Bob Dylan?
- Arrã.


18:33
- O Walter Benjamin?
- Sim. Gostaria também de ser o Kafka.
- O Kafka?
- Sempre entendi o lance do inseto. Odeio quando as pessoas falam que é uma barata. É inominável, barata todo mundo sabe o que é. Você acha que qualquer um pode ser gênio?
- Eu? E você? O que acha?
- Eu poderia ser o John.
- Esse tá fácil: o Lennon.
- É.

23:48
- Se fosse o Paul, seria feliz.
- McCartney? Mas esse ainda está vivo! Você está querendo matar o cara!
- O Bob Dylan também está!
- É verdade! Ele também está, é que parece outra pessoa...
- Justamente, eu queria ser o Paul com vinte e poucos anos. Todos eles com seus vinte e poucos.
- Você tem vinte e poucos anos!
- Não tenho mais. Olhe para mim, estou velha! Voltando ao assunto, o Paul.
- Ter sido o Paul, ou ter estado com ele?
- Sido, estado. Vivido em outro momento.
- E o Ringo?
- Não, o Ringo não.
- Todos homens. Você não gostaria de ter sido nenhuma mulher.
- Não, não gostaria. As mulheres são muito complicadas. Bem, talvez eu tenha decidido ser uma mulher muito complicada.

Acorde-me

Quero ser tudo e todos, menos eu.

De óculos escuros, vale tudo

Era apenas mais um. Dia. Daqueles. Saí de casa rumando sem ver bem ao certo um caminho. Não havia trilhado algum. Seguia, apenas. Mas algumas coisas acontecem e fazem você parar. O trânsito. Os carros passam voando se você não pára na calçada e cede a passagem. Paramos todos. Eu, você. O bonequinho pisca vermelho e indica que não podemos passar. Nos amontoamos todos, feito uma massa amorfa. Esperamos. Uns não tão pacientes se jogam, correm desembestados e chegam ao outro lado. O coração palpita, quase saindo pela boca. Eu vejo de onde estou. O homenzinho verde aparece. Pronto! Podemos todos ir. Uma vai, outra vem. Quase nos esbarramos, quase nos mesclamos. Essa massa errante, vista de cima, deve parecer desatinada. Assim como eu. Eu na massa.

Subi no ônibus. Segui buscando algo daquele dia de nada, quando vejo o Tim Maia cantando: “Vale, vale tudo. Só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher”. Sim, vejo, estava ali o incrível telão-entertainer, no ônibus, nos deliciando com um show ao vivo e a cores do próprio Tim Maia. Mais estranha do que a mania de brindar os passageiros com televisões em transportes públicos, era a coincidência era estar ouvindo as sábias palavras do Tim enquanto descíamos exatamente a Rua Augusta, rua onde todos os homens com homens e mulheres com mulheres já se beijaram mais do que esta música tocou.

Lembrei de quantas vezes subi e desci aquela Rua buscando muitas coisas e encontrando sempre muito nada. Avistei num dos barzinhos da esquina três meninas, nos seus dezenove anos, essa idade que não volta, e eu não sei porque muita gente quer voltar, ou nunca sair, vestidinhas com suas roupas mimetizadas na forma, sem saber o conteúdo, do penúltimo editorial da Vogue. Uma delas, a mais bonita, de cabelos mais loiros e mais compridos, com a calça de cintura mais alta, estava com um óculos de sol que lhe tapava a cara. O céu estava nublado. De fato, começavam a cair alguns pingos de chuva, muito finos, é verdade, mas era, decididamente, chuva. Talvez, os óculos escuros, em alguns casos, nos impeçam de enxergar.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Ele esta lá:



quinta-feira, 24 de julho de 2008

Das vergonhas que o amor nos traz, ou o monstro do amor vai virar desenho

As duas conversavam. Uma ouvia, a outra falava. Depois, a outra ouvia e a uma falava. Dos olhos da menina triste brotava uma imensidão de lágrimas gordas que rolavam rosto abaixo, seguiam o seu fluxo e iam desembocar lá na mesa, fazendo ploct. Dava de ouvir o barulho. Se não fosse a tristeza da cena, daria até para dizer que era bonito de se ver.

- Tenho vergonha de ter vivido isso. É como se, agora, eu quisesse apagar toda a história que vivemos. Esquecer que um dia ele fez parte da minha vida, que dediquei meu tempo a essa pessoa. Não gosto de sentir o que sinto. Não quero sofrer, mas não sei me sentir de outro jeito. É o que posso neste momento. Sabe, porque me vendo de fora, teria tido outra postura.

- Vendo de fora sempre teríamos.

- Não sei se a culpa é minha, dele... ou nossa. Essa dúvida fica me corroendo. Já refiz todos os caminhos, várias vezes, fico sempre pensando. Tento explicar, mas ele parece nunca entender.

- Quando não conseguimos explicar alguma coisa para alguém, talvez este alguém não esteja querendo entender. Ou não queremos bem explicar. Por mais óbvio que a tal coisa soe para nós. Cada um tem o seu tempo, lembra?

- É que eu acho que a culpa é minha.

- Não se culpe. São dois trabalhos: culpar e desculpar. Pode confiar no que estou dizendo e se liberte.

- Sim. Vou me libertar, porque tudo o que fiz foi por amor. Um amor tão grande que virou um monstro... e ficou correndo atrás de mim.

- Agora faça por amor-próprio.

- Na teoria tudo é tão fácil, é que na prática... dói demais...

De quando lhe roubaram os sentidos

Ela ficava ali: apenas sendo bonita. Viu, um a um, todos caírem. Agora era sua vez. Vertiginosamente, ela despencava.

Basta um cara aparecer para você questionar tudo o que você é. Ele fala, você não sabe mais nada. Suas certezas desaparecem.
Desmontaram-me tantas vezes em minúsculas peças de um quebra-cabeça que acabei sem encaixe. Tornei-me uma piada de mau gosto. Ou de um gosto amargo. Um levou meu braço, outro a minha perna. Levaram também, uma vez, os ouvidos. Deve ser por isso que, de vez em quando, falam, falam e eu não escuto. O menos esperto tentou carregar a cabeça. De tão pesada foi ao chão e saiu rolando. Nunca mais foi vista.

Os olhos chorosos

O que fazer da menina que padecia de e por todos os males, mas não tinha motivo algum para sofrer?

Sopa de letrinhas

De novo tudo virou texto.
Cavidade de letras.
Uma bolota cheia de idéias vazias.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Quando o sol vira cinza e o cinza vira sol

Ele é a calma, eu sou o furacão. Entrei em casa e a única coisa que vi era uma bagunça sem fim. Ele olhava e não via nada. “Preciso arrumar as coisas”, repetia para mim, para ele, para ninguém. Sinceramente, já não sei para quem falava aquelas palavras, se saíam em voz alta ou se estavam apenas em minha cabeça.

Quando o caos invade, você arruma tudo: gaveta da cozinha, armário do quarto, cômoda, pilha de revistas que se foram acumulando. Acumulando... como essa sensação estranha estancada dentro do peito, que não sobe, não desce, não anda. Penso em beber algo oleoso para ver se ela escorre e sai por algum lugar. O nojo não me permite, me faria vomitar. Então acumula dentro do peito um peso pesado que só de respirar, dói, e de olhar para os outros, anuncia.

A minha existência é uma denúncia: eu não sou normal. Respiro pelos poros errados. Os que deveriam estar abertos estão tapados. Pelos fechados borbulham substâncias estranhas. Busco ar pelos lugares indevidos. Não sei onde está a força para colocar pé ante pé, por isso, às vezes, eles não saem do lugar e ficam ali, parados. É quando entro numa encrenca. Tamanha. Maior do que eu. Agiganta-se. Dá-me medo. Faz com que tudo se embole. E eu preciso arrumar a casa.

Saí de casa e vi as pessoas reluzentes. Quando estou opaca, elas brilham. Têm uma cor bonita, enquanto eu sou verde-musgo. Não ando, rastejo. Algumas saltitam, outras galopam. É bonito de se ver. Posso até sorrir. Gosto da sensação de ser feliz pelos outros. Essa me atravessa, não provoca arrepios. É apenas passageira. Não nos comprometemos. Eu não dou, ela não tira.

Tirei todos os pratos, copos, travessas, potes de plástico, de vidro e todo o resto do armário da cozinha. Escancarei as portas e as gavetas. Durante trinta minutos admirei o vazio como se fosse uma obra de arte. Não havia nada ali dentro. Fui inundada por uma sensação de alívio e comecei a chorar, ali, sentada no chão frio. Não queria que o telefone tocasse, que alguém me chamasse, não queria ninguém.

Sonho com o silêncio. Esquecer de tudo o que passou e ser um armário vazio, para que possam me olhar assim, sem pensar em nada. Sem passado, sem futuro, sem expectativas. Sou o que posso dar agora. Sou o que fui, não sei o que serei, por isso sou presa ao passado. Não consigo deixá-lo ir. Atada como gêmea siamesa. Posso morrer se tentarem me separar. Pode sobrar nada. Ou posso ficar com seqüelas inimagináveis. Carrego algo que não sou eu, que não é meu e que não sei mais como deixar para trás.

Arrancam-me uma parte cada vez que tenho que ser outra. São as partes desse ser decrépito que me habita. O outro anda escondido debaixo deste, sufocado. Culpa o ar poluído de São Paulo por não conseguir respirar. Mas sabe que, no fundo, quem senta no seu peito é ela mesma. Deve ser um malabarismo e tanto sentar no próprio peito. Posso garantir que treinei largos anos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cafés e algumas divagações necessárias

Lavando a louça, espera que tudo fique enxuto.
Fecha os olhos, sente que as mãos se molham, e escorre a água fria.
É inverno. A espuma não desengordura a louça nem desafoga seus pensamentos, submersos.
O ônibus passa depressa, corre demais, concorrendo com a velocidade de suas divagações. É ela quem tem que quebrar seu ritmo e entrar na dança. Prestar atenção ao que passa despercebido. O reflexo da janela se transforma. Vendo a paisagem passar, o sol vai cedendo lugar a uma escuridão que a deixa ver a lua refletida nas árvores. Escutando aquela canção que a faz sentir o mesmo arrepio, o da primeira vez, admira a beleza escondida na vista.
Sentiu ele chegar. Esperou que se aproximasse. Diferentemente dos tempos de ansiosa, esperou para ver qual seria a sua reação. Deu-lhe um abraço. Forte. Desligou a água fria.
Ainda vestida de avental, largou o prato ensaboado sobre a mesa. Aproximou-se dele, apreciando-lhe os olhos. Subiu um tantinho os pés, alcançando o seu beijo. Sentiu seu gosto de café: doce. Já havia provado alguns demasiadamente amargos. O dele era diferente: quente, confortável e sossegado. Aquecendo-a nas noites geladas.
Era por ele que seu coração batia enquanto a chave procurava o buraco da fechadura e dava duas voltas para abrir, e era ele que ela queria ver assim que abrisse a porta. Um dia ela saiu, achando que jamais voltaria. Ele sabia que continuaria ali, a esperar por ela:
- Pensei que lhe havia perdido.
- Era eu que não sabia mais onde estava.