quinta-feira, 24 de abril de 2008

É quando não tem ninguém olhando que a vida acontece

Eu não gosto de você. Eu não gosto de você. Sinta-se à vontade para não gostar, o sentimento é o que menos importa. Na sociedade do intenso, nada tem graça, se passar dos cinco minutos. Então, apaixone-se instantaneamente e viva um amor louco. Se não for frenético não tem graça. Use o corpo alheio, com certeza esse método já foi utilizado com você. Grite sempre, muito alto, para que todos escutem o quanto você ama a pessoa em questão. Que amor dura apenas entre quatro paredes? Brigas também são muito bem-vindas. Barracos públicos são um sinal de grande afeto.
Tire sempre muitas fotos, suas, dele, dos dois juntinhos. Os auto-retratos são sempre bem-vindos. Ouse, sempre, nas fotos. Nada de poses inocentes, utilize a sua originalidade, faça biquinho ou mesmo o arzinho blasé, tipo não estou nem aí para a câmera. Fique horas fazendo montagens e textos super bacanas e modernos. Imediatamente alimente todos os seus multimeios; casal que se preze tem blog, fotolog, orkut, msn. Não esqueça também de criar intensos depoimentos, e de preferência muitos. “Te quero”, Te desejo”, “Estou te esperando em casa”, “Não vivo nenhum dia da minha vida sem você”. Deixe bem evidente para que todos entendam. Nada de piadas internas, decifráveis apenas pelo casal, isso pode ser feito em momento íntimo. O que vale para o deleite do grande público são poesias, letras de músicas. Quanto mais romântico, melhor.
Passe o dia falando dele, ou dela, para as amigas, ou amigos, ou para quem quiser ouvir, contando todas as histórias nos mínimos detalhes. Os momentos íntimos, de alegria, de tristeza. O quanto vocês se completam. O quanto a sua vida mudou em questão de segundos depois que a pessoa apareceu magicamente na sua vida.
Planeje. Muito. Filhos, casamento, cachorro, uma casinha na praia. Nunca olhe para a verdadeira pessoa que está ao seu lado. Essa não tem graça, é cheia de defeitos. Cair na realidade acabará com o seu mundinho perfeito. Invente essa vida que não existe e sempre esqueça, também, o que você quer. Crie tantas expectativas, para vocês, que, em qualquer realidade, elas jamais se cumprirão. Viva sonhos, viva fotos, viva preso ao universo paralelo da sua própria criação. Esqueça o desenrolar dos dias, eles realmente não têm a menor importância, mesmo sendo aí que a vida acontece.

Sofia encontra-se no lustre

- Cuida de mim. Eu gosto tanto de você. Eu preciso de você.

Deitada no chão, suas costas eram tão magras que sentia os ossos batendo no cimento, doíam-lhe, sempre. Fitava o lustre que emanava uma luz amarela, incomodando-lhe as vistas. Era quase hipnótico. “Se esse troço cair em cima de mim agora, não vou me importar”. Era isso que pensava enquanto alongava suas já longas pernas. A calça justa denunciava o fêmur saltado. A cor preta contrastava com o tom branco da pele, deixando-a com ares de enferma. “Se cair na minha cabeça, só não quero sentir. Será que sente?”.

- As pessoas não precisam umas das outras.
- Mas, por favor, deixe eu subir. Não quero ficar sozinho.
- Quero dormir sozinha.
- Como alguém prefere dormir sozinha a acompanhada?
- Algumas pessoas escolhem.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

São os círculos do espetáculo que encantam Sofia

Se é verdade que se morre para virar outra pessoa, ou pessoa nenhuma, então quantas mortes minhas já não vivi. E quantas mais não presenciei daqueles com quem convivo? Quantas juntam-se, quantas esvaem-se.
Umas pesam nos ombros, outras jazem aliviadas em suas covas.
Já fui palco, fui platéia.
Uns, convidados ao espetáculo, vaiaram a cena principal, outros, enxeridos, jamais deixaram de admirar.
Sinceramente, matei-me tantas vezes para no momento presente sentir um tisco de orgulho do que penso ser.
Dizem que cada passagem da vida é dolorida como a morte, no corpo eu sinto: uma pessoa precisa morrer para outra florescer no lugar.

domingo, 6 de abril de 2008

A cada fio, Sofia desenrola-se

Na busca de fazer-se, sem que nem ao certo saiba o que, corre mais uma vez em busca da perfeita moldura, a qual, se bem posta, a lembrará, a cada reflexo no espelho, que não tardará muito em alcançar aquilo que pretende ser.
Certeira a tesoura corta fio a fio, alinhando-os simetricamente. Vai talhando dela este resto de tecido morto que já não lhe faz mesmo parte. Anseia em sua vida o novo, não quer mais depositado em si nem uma lasca daquilo que um dia já lhe fez parte. Admira o chão com um sorriso oblíquo: atirados ao solo, estão todos ali, como que saídos de um campo de batalha. Não se importa. Já não fazem parte dela. Juntando a sujeira, a vassoura, pouco a pouco, forma uma manta de pêlos, enquanto ela, encolhendo-se na cadeira, percebe o seu descompasso. Seus cabelos se vão e isso basta para que retorne a sua fragilidade. Seu anti-reflexo é trazido pelo improvável. O que lhe fez faz parte, e continuará fazendo, são as junções que formam um todo. Divisível. E multiplicável.

A princesa do seu próprio reino

O novo corte lhe emoldurava o rosto delicado. Chanel moderno, finalizado com a franja reta, harmonizava com seus traços suaves.
Arrumou-se para ele: vestiu-se do vestido mais rodado e do sorriso mais vibrante.

- Você está linda! Parece uma boneca!
- Como assim? Tipo uma Barbie?
- Não! Tipo um Playmobil!

Ela sorriu, sentido-se linda, trocando olhares com aquele que entende que ela nunca fez parte de uma propaganda de margarina.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O que machuca sem se ver

Sentei-me exposta àquilo que quero esconder
Tento a tanto que já nem sei
Paralisada na fuga do dia-a-dia
Apanhada de surpresa, descoberta por mim
Hilário aos olhos alheios, fundo pesou certeiro